Tribuna

O dramático impacto da pandemia nas mulheres

O mundo enfrenta atualmente uma crise multidimensional de proporções históricas: a pior, talvez, em 100 anos. Eu, sem dúvida alguma, confirmo isso: em todos meus anos de economista, de política, de internacionalista, não tinha visto fatos e números como os que vemos agora.

Nesta crise global por excelência, não há país que se salve. Segundo as últimas previsões do Fundo Monetário Internacional, a economia mundial vai se contrair até 4,4% em 2020. Salvo a China, nenhuma grande economia do mundo crescerá neste ano.

No entanto, gostaria de chamar a atenção sobre o impacto diferenciado e, amiúde desproporcional, que a COVID-19 teve nas mulheres, especialmente na América Latina, um dos epicentros da infecção onde se esperam quedas superiores a 8% do Produto Interior Bruto.

A crise interage com as brechas preexistentes e as amplia, de modo que a desigualdade de gênero, que é transversal

Em efeito: a crise interage com as brechas preexistentes e as amplia, de modo que a desigualdade de gênero, que é transversal a toda a estrutura socioeconômica, se viu aprofundada e agravada na América Latina.

Antes da pandemia, as mulheres latino-americanas participavam 25% a menos no mercado laboral, ganhavam 17% a menos que seus pares masculinos, tinham uma maior taxa de informalidade, a metade não estava afiliada à segurança social e, ao voltar para casa faziam, em média, o triplo de horas de trabalhos domésticos e de cuidado não remunerados que os homens.

Devido de estas condições preexistentes, se estima que neste ano a região terminará com 118 milhões de mulheres em situação de pobreza, 22% a mais que em 2019.

 

Precarização

Isto se explica, em parte, pela precarização do emprego feminino, mas também pelas maiores dificuldades em conciliar trabalho e família devido à inexistência, fechamento ou interrupção dos serviços públicos e privados de cuidado. Antes da crise, 53,5% das mulheres estavam empregadas nos setores mais afetados pela pandemia, 48,7% recebiam um ingresso laboral menor que o salário mínimo e menos de 45% das trabalhadoras domésticas tinham proteção social.

Por outra parte, na América Latina 57% do pessoal de saúde é feminino e, portanto, com alta exposição ao contágio, ao estar na primeira linha de resposta à pandemia. No entanto, ganham menos que os homens e estão infrarrepresentadas nos cargos de decisão do setor: menos de um quarto dos ministérios de saúde nas Américas estão liderados por mulheres.

Na América Latina 57% do pessoal de saúde é feminino, no entanto, menos de um quarto dos ministérios de saúde nas Américas estão liderados por mulheres

Por outra parte, as micro e pequenas empresas que são propriedade de mulheres, que já em circunstâncias normais enfrentavam muitos desafios no momento de encontrar opções de financiamento, se viram particularmente afetadas pela crise da COVID-19. Segundo o Banco Mundial, na América Latina estas têm 11% a mais de probabilidades de fechar que aquelas com proprietários homens.

 

Oportunidade de mudança

Em combinação, todos estes fatores estruturais implicam um importante risco de retroceder nos cruciais –mas ainda  insuficientes– avanços que conseguimos até a data em matéria de igualdade de gênero e empoderamento econômico das mulheres.

Antes da pandemia, o Foro Econômico Mundial estimava que demoraríamos um século em alcançar a igualdade entre homens e mulheres. É desconsolador pensar que os impactos da pandemia revisariam esta projeção ascendente, quando o que devemos fazer é trabalhar incansavelmente para seguir reduzindo-a.

A 25 anos da Declaração e Plataforma de Ação de Beijing, o plano mais ambicioso que existiu para promover os direitos da mulher, faço um chamado para que esta seja uma oportunidade de impulsionar mudanças transformadoras que nos permitam superar as brechas de gênero.   

Não permitamos que as políticas públicas sejam projetadas sem considerar os impactos diferenciados sobre as mulheres

Valorizemos tudo o que, neste ano, as mulheres demonstraram à frente da saúde, dos cuidados, das empresas, das escolas e das famílias, e não permitamos que as políticas públicas sejam projetadas sem considerar os impactos diferenciados sobre as mulheres; para isso, estas devem ter uma voz e uma participação ativas e decisivas na recuperação socioeconômica pós pandemia.

Neste labor encontrarão à Secretaria-Geral Ibero-americana como uma aliada. Já seja em nossa iniciativa para promover a eliminação de leis que discriminam por gênero. Já seja na coalizão que impulsionamos na Ibero-América para o empoderamento econômico das mulheres. Já seja na próxima Cimeira Ibero-americana que celebraremos em abril de 2021, em Andorra, onde sem dúvida este tema terá grande relevância.

Uma “nova normalidade” que é mais desigual não merece se chamar “recuperação”.

Este artigo foi originalmente publicado na versão impressa do jornal costa-riquenho La Nación em 18 de Novembro de 2020.

Uma versão apenas para subscritores pode ser lida online aqui  

Los argumentos expuestos en esta tribuna responden en exclusiva al punto de vista del autor, que es responsable de las opiniones manifestadas, y no reflejan en ningún caso la postura de la SEGIB

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COVID-19 Mujeres Tribuna


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