Tribuna

A construção do triângulo: América Latina – Europa – África

«Buen día, Presidente. Me desculpem, tenho de atender. Muy bien gracias, acá estamos y usted? Estuve hablando con su embajadora, me dijo que iba a llamar.»
Um inesperado sol quente de inverno castelhano entra, orgulhoso, pela sala dentro e quase cega quem está de frente para a janela, de quase 3 metros de altura.
Sem prestar grande atenção aos 88 anos que não lhe pesam sobre os ombros, o nosso interlocutor gesticula de pé ao telemóvel, enquanto percorre com leveza o seu gabinete no Palácio de Linares, em Madrid, passeando entre a secretária e os cadeirões verde floresta.
Volta-se para nós e retoma a conversa num português açucarado, onde são indisfarçáveis uns grãos de pimenta rio-platense.
«então, me estavam contando…o Atlântico. Tenho muito interesse. Tenho lido muito sobre essa relação da América Latina com África e a Europa. O potencial demográfico da humanidade não está na Ásia, está em África. O desenvolvimento tecnológico não está no Pacífico, está aqui mesmo no Atlântico, nos Estados Unidos e na Europa, e vai depender dos mercados da América Latina e África. Cuando es eso, 14 y 15 Mayo? En Lisboa? Ya está, contem comigo.»

O potencial demográfico da humanidade não está na Ásia, está em África

Enrique V. Iglesias, 88 anos, desconhecido de muitos portugueses, mas a quem Presidentes e Ministros de todo o continente americano pedem conselhos há mais de meia década, aceitou o convite do Instituto para a Promoção da América Latina e Caraíbas (IPDAL) para participar novamente nos Encontros “Triângulo Estratégico: América Latina – Europa – África”. Na verdade, foi precisamente quando era Secretário-Geral Ibero-americano que, logo em 2011, se entusiasmou de imediato com a primeira edição da iniciativa.
«y cuéntenme, quien más va a participar este año?»

A mais jovem Chefe de Estado do Mundo, quando tinha apenas 28 anos. O primeiro Primeiro-Ministro eleito democraticamente na Roménia após a queda do ditador Nicolae Ceausescu. Um ex-Presidente da República Argentina e os atuais ministros dos Negócios Estrangeiros de Argentina e de Espanha. Anteriores ministros de Argentina, Brasil, Colômbia, Equador, Marrocos, Peru e os portugueses António Martins da Cruz, Daniel Proença de Carvalho e Luís Amado, a Secretária Executiva da CPLP, think tanks e fundações da Alemanha, Bélgica, Espanha, Marrocos e República Checa, sem contar com embaixadores dos três continentes.

Co-organizado pela Caixa Geral de Depósitos e pela Secretaria-Geral Ibero-americana (SEGIB), o VII “Triângulo Estratégico” reúne ainda grandes empresas e instituições internacionais como a TAP, o Banco Europeu de Investimento (BEI), a Fundação Konrad Adenauer, Real Instituto Elcano, CESO, Amadeus, Grupo Sousa, Uría Menéndez – Proença de Carvalho, Universidade Europeia, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Organização dos Estados Iberoamericanos (OEI), Porto de Sines, Indra, SDM, Fundação Calouste Gulbenkian, entre tantas outras.

O potencial do Triângulo, em que todas estas instituições acredita, é ilustrado em números que temos obrigação de conhecer: metade de toda a terra cultivável e não explorada do mundo encontra-se na América Latina e em África. Metade fontes naturais de água potável. Pelo menos um terço das reservas conhecidas de combustíveis fósseis. E ainda a complementaridade surpreendente das pirâmides demográficas dos três continentes, que, quando sobrepostas, conformam um perfeito triângulo equilátero.

metade de toda a terra cultivável e não explorada do mundo encontra-se na América Latina e em África

Obviamente não negamos a relevância incontornável dos Estados Unidos nas dinâmicas atlânticas. Também não negamos a transcendência do Pacífico nem o papel que a China tem desempenhado no desenvolvimento de África e da América Latina. Mas não nos esquecemos que, até ao final deste século, o português vai ser uma das três línguas faladas em África, nem que num mundo onde a competição global não vai deixar espaço para os atores pequenos, temos de colocar-nos no centro da articulação de grandes interesses e temos de projetar ao máximo a nossa capacidade de punch above our weight.

O IPDAL defende, pois, que é em Lisboa que esta discussão deve ter lugar e somos os únicos a discutir a centralidade de Portugal neste Triângulo. Não temos dúvidas que é este o centro histórico, geográfico e culturalmente mais apropriado para nos unirmos e pensarmos em soluções próprias para desafios comuns.
É, assim, com o objetivo de sensibilizar e chamar a atenção não só da opinião pública, mas também dos nossos dirigentes, para esta quantidade de factos, não só relevantes como indesmentíveis, que sai anualmente dos Encontros um policy paper com as propostas de melhoria e as recomendações dos participantes, sobre como fortalecer as relações entre os vértices do triângulo. O documento é entregue ao Governo e à Presidência da República de Portugal, às instituições europeias e à Secretaria-Geral Iberoamericana, tendo apresentações públicas e divulgação internacional.

Por todos estes motivos, onde consideramos que Portugal tem todas as condições para assumir, hoje e no futuro, uma posição de relevo à escala global, que permita obter vantagens políticas, económicas e diplomáticas, que se traduzam numa melhoria das condições de vida das nossas populações, é precisamente na consolidação deste papel de pivot confiável e de plataforma eficaz para a reunião dos líderes das instituições mais importantes, dos continentes com mais futuro assegurado no planeta.

Os argumentos expostos nesta tribuna respondem em exclusiva ao punto de vista do autor, reponsável pelas opiniões manifestadas, e não refletem de nenhuma maneira a postura da SEGIB.

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